estelle flores: a resistência feminina na auto­publicação.
por Karine Bravo


­ Antes de tudo, eu queria que você contasse um pouco da sua trajetória. Como você começou como artista? Comecei através do estimulo de amigos que me deram oportunidades para mostrar meu trabalho, como a banda Subburbia, com a qual trabalhei fazendo a parte visual durante 2 anos.

Com trabalhos que transbordam personalidade e vão além da representação visual do corpo feminino, o seu fascínio por impressos não esconde: ela é uma das identidades que fazem a história editorial independente curitibana continuar a ser escrita.

- Antes de tudo, eu queria que você contasse um pouco da sua trajetória. Como você começou como artista?

Comecei através do estimulo de amigos que me deram oportunidades para mostrar meu trabalho, como a banda Subburbia, com a qual trabalhei fazendo a parte visual durante 2 anos.

No começo trabalhei muito o auto­retrato, era mais fácil me desenhar pois eu poderia tirar uma foto de referência em qualquer pose que eu quisesse, e também porque eu queria deixar claro que era um trabalho autoral, que ele estava falando sobre mim. Como minha miga Pac Calory diz, no começo nada é sutil, depois começamos a tentar esconder um pouco mais as intenções do trabalho, deixar um pouco pro expectador refletir. Depois passei um ano off, entrei numa fase tempestuosa que não me deixou produzir muito. Quando saí dessa cruzei pelo caminho com muita gente inspiradora. Me botaram no grupo zine XXX do facebook, onde eu conheci os zines e através desse mesmo espaço tive a oportunidade de participar da Feira Plana 2, onde lancei meu primeiro zine, As Coisas que Eu Escolhi. A partir daí foquei minha produção no zine, conheci o feminismo, conheci pessoas que me levaram a reflexões artísticas mais profundas como o grupo temporariamente nomeado como Brutas, do qual participo junto com outras 4 artistas de Curitiba. Durante um tempo minha arte foi considerada feminista por causa da minha posição politica, mas sem de fato tratar disso como tema. Não que eu trate o feminismo como tema, mas refletindo um pouco sobre o papel dele no meu trabalho, passei a introduzir alguns conceitos com os quais eu me identificava muito no trabalho de outras garotas, como o uso de personagens que desafiem um pouco a visão da beleza feminina tão batida pela mídia e pela publicidade com a qual convivemos diariamente. Artisticamente, não tenho educação formal, mas eu me eduquei no retrato, ou sempre foi o que eu achei que estava fazendo. Outros trabalhos nunca serão tão importantes pra mim quanto os trabalhos que envolvem a figura humana. Dito isso seria coerente que a minha inspiração viesse do corpo, é uma coisa a se pensar, mas eu vejo meu processo como uma coisa mais mental.
Acho que a minha inspiração vem desses universos particulares que habitam os corpos. Acho que através do retrato quero falar mais sobre esse universo do que retratar esse corpo e o meu trabalho vai mudando conforme eu consigo fazer essas reflexões e as aproximar do meu trabalho.

- Você é co-fundadora da Selva Press! Como surgiu a ideia? Por que a Risografia?

Eu e meu namorado Marcelo Romero, meu socio na Selva, queriamos muito imprimir em Risografia aqui em Curitiba! E pessoalmente eu queria muito um trabalho que não me tirasse muito do foco principal, um trabalho que talvez até ajudasse nesse foco, e aí veio a Selva. A Risografia é um método de impressão que tem tudo a ver com o mercado editorial independente, pois possibilita a produção de materiais de baixa e média tiragem, no nosso caso, de 30 a 1000 copias.

- Recentemente você participou de um projeto com a Melissa que resultou na criação de um zine incrível para a Melissa Makers. Como foi fazer parte disso?

Foi legal! Tivemos liberdade total, um bom orçamento e pouco tempo para fazer o zine! Mas ele ficou legal, eu gosto muito do meu trabalho que está nele, que é principalmente a colagem sobre a Maria Bueno, uma "santa" feminista de Curitiba.

- Os zines estão agitando o mercado editorial! Por que você escolheu trabalhar com esse formato e como funciona o seu processo criativo?

Eu pensei nesse objeto artístico muitas vezes sem saber como ele se chamava. Era uma coisa que eu me questionava...porque as pessoas não fazem isso? Antes mesmo de eu fazer qualquer tipo de arte. Eu sempre gostei muito de livro, de revista, de qualquer coisa impressa, e quando o zine veio pra mim eu estava completamente desacreditada dos rolês tradicionais da arte e completamente perdida dentro de mim.

Pareceu uma escolha óbvia. O primeiro zine que eu li foi A Ética do Tesão na Pós­Modernidade, da Lovelove6 e ele fez eu me encontrar na vida.

- Como você vê o crescimento da cultura de auto­publicação e impressos no Brasil? Acha que
as feiras de zines que temos hoje em dia são suficientes?


Esse crescimento acontece através de uma tendência mundial onde o objeto artístico zine e o livro publicado de maneira independente vem ganhando atenção do público e da mídia. Conforme isso acontece, várias feiras vão nascendo pelo país. Essas feiras são importantes porque formam o público, o aproxima de tendências artísticas mundiais, facilitam seu contato com o artista e democratizam o acesso a arte pois

os preços desses materiais são populares se comparados a outros objetos artísticos. Quanto ao artista, é uma
oportunidade rara de encontrar o seu público, divulgar seu trabalho, transformar a sua arte em dinheiro. É um
negócio que realmente preenche lacunas, dá pra entender porque está crescendo.

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- Outra pergunta: Podemos esperar que isso continue crescendo no futuro?

Eu espero! Eu imagino um mundo onde o mercado editorial independente é o mercado editorial. Não é
segredo pra ninguém que as editoras tradicionais estão morrendo, que os esquemas tradicionais de
comercialização da arte estão morrendo.

- Nós sabemos que ser mulher e artista independente não é fácil. Qual é a dica para não
sucumbir à pressão de procurar empregos tradicionais e desistir de viver da arte?


Criar seu próprio emprego, atacar de várias frentes, ter cara de pau e paciência. Mas, as vezes procurar um
emprego tradicional é necessário sim, tudo depende das prioridades de cada um, muita gente não tem uma
situação confortável na casa dos pais e a prioridade dessa pessoa é cair fora. São muitas questões
envolvidas, tem muita gente que tem um talento incrível mas não tem o pensamento voltado pro lado
estratégico e burocrático de sobreviver de arte. Não ter um emprego é trabalhar 24hrs por dia.

­- Para finalizar, conte um pouco sobre quem te influencia artisticamenteDaqui do Brasil curto muito o trabalho da Rachel Denti, da Lovelove6, das Brutas (Jéssica Luz, Gio Soifer,Érica Storer e PAC Calory) e também admiro muito a editora Vibrant, das irmãs Isadora e Martina Brant. Dagringa eu curto mto a Heather Benjamin, Mariana Miserável, Power Paola, Sarah McNeils, Ashley Ronning emais umas tantas.